Você está coçando os olhos? Pare agora mesmo!

Hoje em dia já se conhece bem a associação entre a alergia ocular e o desenvolvimento do ceratocone, mas nem sempre foi assim. Os primeiros relatos foram publicados nas décadas de 1940 e 1950, nos quais pacientes acometidos por casos graves de dermatite alérgica desenvolveram também casos severos de ceratocone.

Logo depois surgiram os relatos de casos relacionados a alergia ocular grave, principalmente a ceratoconjuntivite atópica, e a sua associação com o desenvolvimento do ceratocone, em alguns pacientes estudados. Para tentar explicar essa associação vários fatores foram postulados, dentre eles o ato de coçar os olhos (trauma mecânico crônico), associado a uma predisposição genética individual.

A publicação do Consenso Latino Americano de Alergia Ocular em 2011 estabeleceu alguns referenciais para o rastreio, diagnóstico e tratamento da alergia ocular, a qual foi estabelecida como termo genérico, englobando várias formas de alergia, tais como as conjuntivites sazonal e perene, e as ceratoconjuntivites vernal e atópica.

Nesse sentido, é importante que tanto os pacientes quanto os oftalmologistas informem e pesquisem os sinais e sintomas de alergia ocular, que podem ser lacrimejamento, prurido, fotofobia, hiperemia, mesmo que seja numa consulta de “rotina”, de modo que sejam detectados precocemente e oferecido o tratamento mais adequado, prevenindo o desenvolvimento ou a progressão da doença corneana.

Em relação ao tratamento da alergia ocular, existem atualmente diversas opções. Como primeira linha, temos o controle dos fatores ambientais desencadeantes do processo alérgico e o uso de lubrificantes, os quais têm por finalidade o alívio sintomático e a diluição das substâncias inflamatórias presentes nas lágrimas desses pacientes. Lubrificantes sem conservantes podem ser utilizados, caso disponíveis.

Como segunda linha estão disponíveis os medicamentos anti-histamínicos, os estabilizadores de membrana (como o cromoglicato) e as drogas de ação múltipla (olopatadina, cetotifeno, alcaftadina), sendo conhecidas como drogas “poupadoras” de corticoides. Esses últimos devem ser utilizados com cautela, pois, apesar de extremamente importantes no controle das exacerbações da alergia ocular, apresentam vários efeitos colaterais perigosos, principalmente quando utilizados por longo prazo, tais como catarata e glaucoma, devendo ser reservada sua prescrição pelo menor tempo, numa posologia suficiente para deixar o paciente assintomático.

Podem ser utilizados os corticoides “fortes” como o acetato de prednisolona 1% ou o fosfato de dexametasona 0,1%, ou ainda, os corticoides “fracos” como o loteprednolol, acetato de prednisolona 0,1%, que apresentam uma menor incidência dessas complicações. Drogas alternativas, que também são vistas hoje como potenciais poupadoras de corticoides, pertencem a classe dos imunomoduladores, dentre eles o tacrolimus 0,03% e a ciclosporina 0,05% (Restasis®, Allergan). O tacrolimus é um potente inibidor da liberação de enzimas mediada por IgE e apresenta um perfil de tolerância melhor que a ciclosporina, com menor irritação.

Os vasoconstritores tópicos e os AINE`s (como o cetorolaco) não devem ser utilizados de rotina. Antihistamínicos orais podem ser prescritos para controle sintomático do prurido, dando-se preferência aos de segunda geração, os quais tem menor tendência de causar sonolência (loratadina, p. ex.). A imunossupressão sistêmica (ciclosporina ou prednisona) pode ser utilizada como recurso nos casos mais graves, geralmente nos casos de ceratoconjuntivite atópica, sendo recomendável o acompanhamento multidisciplinar, com o apoio também de um alergologista.

Por fim, deve-se enfatizar que o objetivo do tratamento desses pacientes deve ser o controle dos sinais e sintomas da alergia ocular, principalmente orientando abolir o ato de coçar os olhos, de forma a melhorar sua qualidade de vida e sua saúde ocular. Os sinais e sintomas devem ser procurados ativamente, a fim de que sejam feitas orientações preventivas e de detecção e controle da evolução da doença, a qual pode trazer grande morbidade, principalmente em crianças e adolescentes jovens, época na qual existe maior incidência do surgimento do ceratocone.